Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Animus Semper

AS ESCADAS DA VIDA

 

Mais uma mensagem do Pires da Costa, desta vez acompanhado da sua esposa na foto, ela também a servir de corrimão a quem ele se agarra para saborear a vida! AH

 

«...se para subir é necessário esforço e ultrapassar muitos escolhos, é nas descidas que se dão os grandes trambolhões.»


Pires da Costa.jpg

 

Pego na pena, passo a outra mão pela face, fito o tecto como que à procura de lá encontrar ajuda inspiradora, paro na expectativa de que algo possa surgir de qualquer lado e que me ajude a iniciar o texto que pretendo escrever.

Procuro desatar a imaginação que parece presa por um nó  que, com alguma angústia, sinto demasiado apertado .E, só muito lentamente, vou sentindo o cérebro a libertar-se e a espairecer como se nele penetrasse uma luz capaz de desbloquear o impasse criado  sem justificação aparente. Finalmente, após uma espécie de paragem forçada, o pensamento começa a discorrer e, na sua correnteza, surgem, finalmente, ideias que se apresentam numa espécie de «sobe e desce» movidas por impulsos automáticos e incontroláveis como que a tentar furtar-se ao controlo da minha vontade. Saia o que sair, é tempo de começar. Subindo ou descendo, não interessa.

Forço-me a mim próprio a imaginar, a caracterizar, a definir, a escalpelizar e a localizar todas as escadas que já subi e desci ao longo da vida. Sintetizo a evocação da forma mais prosaica e bastante redutora: foram muitas e variadas.

Desde a matéria, à forma, ao tamanho, ao estilo, à localização, à segurança, à estética e  à mobilidade conheci escadas de tal modo diversificadas que me  conduzem à lembrança do que caracteriza o mundo dos homens e das mulheres: há semelhanças e analogias entre todos, mas nenhum ser humano é  exactamente igual ao outro.

escadas.jpg

Se nos cingirmos à verdadeira função de uma escada que se preze, concluímos que ela é um tanto ilusória e merecedora de análise mais profunda e detalhada. Dentro de um conceito consuetudinário, as escadas foram feitas para subir e descer. Mas, pensando bem, elas foram imaginadas para subir. O descê-las representa apenas um recurso para retomarmos o que sempre aspiramos a fazer: subir. No espaço e na vida.

Mesmo considerando aquelas que se fazem para nos introduzirmos nos subterrâneos, o objectivo visado com a sua feitura é o subir e não o descer. Subir para a terra firme.

Discutível o princípio enunciado? Mas o que é que não é discutível no mundo dos homens? Só o indiscutível, mas este, à luz da razão e da liberdade, simplesmente não existe. Consequência do iluminismo filosófico? Seja. Mas, depois das trevas, é a luz que prevalece. Voltemos às escadas.

     Subir escadas assemelha-se muito ao acto de subir na vida. Em qualquer dos casos, há sempre que ter consciência das vantagens e dos riscos que comportam todas as subidas, sejam elas de que natureza  forem. É que as subidas exageradas comportam riscos cujas consequências devem ser sempre bem ponderadas, dentro do princípio simplista, mas recheado de sabedoria popular,  de que quanto maior for a subida  maior pode ser a queda.

E mesmo considerando o conhecido adágio contido na expressão «a descer todos os santos ajudam», não nos devemos iludir pois, em boa verdade,  se para subir é necessário esforço e ultrapassar muitos escolhos, é nas descidas que se dão os grandes trambolhões.

O ser humano identifica-se, fundamentalmente, com a terra firme, visto que é nela que pode encontrar tudo o que precisa para viver. A humanidade e a terra constituem o complemento por excelência da Natureza, como que destinadas a viver num permanente abraço, tão dependentes uma da outra  que, se não existisse uma intervenção recíproca no viver de cada uma delas, a vida no planeta perderia totalmente o sentido que, nesta dicotomia Terra / Homem, lhe é atribuído.

E porque assim é, o verdadeiro lugar do homem é na terra firme. Porque é inteligente e pode usar a razão, passa  grande parte da sua vida a imaginar e a construir escadas de todas as formas e feitios e com os mais diversos materiais. Umas com alicerces e outras sem eles, mas todas vulneráveis de tal modo que podem sempre desmoronar-se e reduzir-se a pó na terra firme, local onde regressa sempre toda a fantasia criativa do ser humano.

No entanto, sem escadas o que seria a vida do homem? Construam-se pois escadas em abundância, repletas de materiais ou fantasias, mais destas do que daqueles, pois só a subir conseguiremos realizar sonhos e quimeras que nos hão-de conduzir à verdadeira libertação, aquela que nos ajudará a ser criadores e a viver com sentido e dignidade.

 Afastemos o receio de subir e descer, mas pratiquemos estes actos com ponderação e  equilíbrio, para que a subida tenha um máximo de firmeza e a descida um mínimo de  segurança.

Se o leitor chegou até aqui e não se enfadou de tanta escadaria, tenho de louvá-lo e, ao mesmo tempo, pedir-lhe desculpa. Louvá-lo, pela sua paciência; pedir desculpa pelo cansaço que lhe causei com tantas subidas e descidas. Eu próprio confesso que fiquei fatigado. Porém, sem direito a indulgência, já que fui o verdadeiro pecador.

Já agora, peço-lhe que acabe a leitura, pois o que a seguir digo constitui a essência de tudo o queria transmitir.

Que todos nos compenetremos de que as escadas só desempenharão a sua função se os homens nelas souberem circular. Sem atropelos; sem empurrões; sem ultrapassagens violentas; sem rasteiras; sem pisadelas; com educação e honestidade.

Se assim for, sempre haverá uns que subirão mais do que outros, maescadas1.jpgs não virá daí mal ao mundo… Antes pelo contrário, todos poderemos beneficiar com isso, se os que podem ou conseguem subir muito alto souberem descer para ajudar os menos capazes. Até porque estes também podem ser úteis de muitas maneiras, que mais não seja para construírem os degraus que outros hão-de subir.

Evoquemos o Aleixo, o poeta  algarvio :

 

             «  Tu, que tens saber profundo, 

               És engenheiro e vês bem.

              Constrói uma ponte em que o mundo

              Passe sem esmagar ninguém.»

 

    Acrescento eu: quem diz pontes, diz escadas… As da vida ou outras.                              

 

A. Pires da Costa