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Animus Semper

ALARES À VISTA

Mais uma primeira colaboração

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O João Antunes avançou mesmo... Aqui está o seu primeiro texto, o relato de um passeio pelo Tejo Internacional até uma aldeia cuja história já fala da dureza dos campos, dos rebanhos, das aves e das guerras entre vizinhos. Parabéns! AH

 

ALDEIA DOS ALARES

  

A Aldeia dos Alares, teve a sua origem a partir dos povos de Malpica e Monforte e na tentativa de defenderem os seus haveres das mãos dos invasores franceses, cultivavam às escondidas a região fértil e inculta, entre o Rio Aravil e o Tejo, próximo do Rosmaninhal. Obtinham boas culturas à custa de muito trabalho suado.

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 Chegamos cedo, dentro do horário marcado para o início do planeado passeio pedestre. A Casa do Xarês fica na encosta norte no Couto das Correias. Os participantes, cerca de quarenta, aguardavam a chegada dos mais atrasados e iam preparando as mochilas, muniam-se de garrafas de água, e o grupo de cavaleiros acalmavam as suas montadas para que, à hora combinada, cada um tomasse o seu lugar.

Com circuitos previamente definidos, os cavaleiros seguiram pelos caminhos apropriados para os cavalos e reuniam-se nos Alares com o outro grupo para o almoço.

Entramos no veículo todo o terreno KIA, que nos levaria até ao antigo posto da Guarda Fiscal, agora abandonado, e que serviu posteriormente à QUERCUS para estudo e recuperação de aves. Daí seguimos para o observatório das aves, situado a um quilómetro mais abaixo, já na encosta que nos mostra o Tejo internacional. Avistamos aves voando em círculo como o grifo e o abutre, observamos os fugidios veados e a soberba paisagem, valia pelo momento.

Fotos a tudo o que desperta interesse, procurando o melhor ângulo para valer como documento do local.

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Lá no fundo, do grande " Canyon", o rio Tejo mostra o azul das suas águas que vagarosamente vão descendo na corrente.

As suas margens, vestidas de vegetação tradicional da região, apresentam oliveiras escondidas e maltratadas, que não podem produzir bons frutos. Épocas que já lá vão, em que estas azeitonas, apanhadas nestes socalcos, davam origem ao tradicional e fino azeite.

Retomamos a vereda do regresso; as estevas ladeiam o trilho tortuoso, obstruem-nos a passagem e emelam-nos as mãos. A subida íngreme custa mais, o ritmo vagaroso dá tempo à contemplação da majestosa paisagem. Os placards anunciam, através de fotos, a população residente nestes matos, que à noite vagueia por estes trilhos.

Desde os esquivos veados, os barulhentos javalis, autênticos guerreiros dos bosques, raposas e gatos bravos e ainda os saca-rabos, texugos e ginetas. Fauna rica e variada que dificilmente se mostra aos observadores.

Lá em cima, outros cruzam os ares, à procura de alimentos: a cegonha negra que encontra aqui um habitat propício à sua existência, a águia real, de grande porte, que por aqui cria e se alimenta, o abutre do Egipto, ave rara que aparece nesta zona, o Grifo e o Abutre - os cangalheiros da paisagem sempre à espera que os fracos tombem, e o Açor com a sua velocidade de voo e perspicácia, que apanha as aves mais descuidadas.

Mas nesta paisagem, há também vestígios de exploração de ouro e outros minérios nas épocas visigóticas e romanas. Supõe-se que o rio Tejo trancado nas portas de Ródão, banhava toda esta região formando um grande lago. Encontraram-se areais nas elevações dos montes, justificando esta teoria.

Calcorreando o caminho, chegamos ao talefe situado no cume de uma elevação, local onde se situou um dólmen já destruído pelo tempo e cujos materiais foram utilizados para outros fins.

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Aqui apagou-se a história, pouco resta.

 

Dobrada a encosta e junto ao caminho, a sombra de uma azinheira dava-nos o conforto por breves momentos. O calor apertava e convidava a uma bebida fresca, que chegou na hora certa.

Prosseguimos em direcção à aldeia dos Alares pelo caminho definido na paisagem e lá em frente surgem os escombros daquela que foi uma aldeia de pastores e agricultores.

Por um atalho e em linha recta, fui por aquele corta-mato entrar nos escombros das casas, residências daquela época; as pedras e lajes de xisto testemunham a aldeia.

O povoado não teria mais de cem famílias de gente simples e dedicada à vida agrícola. Sempre aqui viveram nesta paisagem tranquila até serem incomodados pelos vizinhos rosmaninhenses.

Na época, lutava-se pela posse das terras que eram a fonte dos seus rendimentos. E tendo esta zona sido vendida pelos herdeiros à população dos Alares e à do Rosmaninhal, todos se achavam com o direito de exigir as terras compradas e daí surgiu a guerra dos montes que durou cerca de 10 anos, vindo a terminar por volta de 1930.

Já eram quase treze horas e o cheiro dos grelhados para o almoço aguçava o apetite.

Fomo-nos aproximando do telheiro da associação dos caçadores, uns grelhadores a fumegar, mesas alinhadas, uns pratinhos com morcela assada, chouriço, entremeadas e febras. Cada um ia petiscando. Sabia muito bem e era a compensação da caminhada. Os pratos de plástico não tinham descanso, e o corre-corre para o grelhador era uma constante.

Já saciados, chegou a fruta. Uma caixa de laranjas e outra de maçãs, que regalavam a vista com o seu tamanho XL. Um saco de melancias, ocupava o porta bagagens do KIA à espera que um cutelo as cortasse para serem servidas. Não foi o caso e continuaram o seu destino.

Prepara-se o derradeiro arranque. O pessoal movimenta-se, arruma o local, aparelham-se os cavalos e os cavaleiros são os primeiros a iniciar a viagem de regresso à Casa do Xarês. Cada um toma o lugar no veículo que o trouxe.

Iniciamos a marcha e o condutor, deixando o caminho mais polido e definido da paisagem, dirige o veículo pela encosta acima, um atalho duvidoso que ele dizia conhecer muito bem. A certo ponto, não há sinais de caminho nenhum e o veículo, dirigido por entre giestas e calhaus, lá vai progredindo com muita dificuldade, ao ponto de incomodar os calhaus pacíficos do terreno. Aí, eles acusam o toque e o veículo quase que vira. Aconselhamos o condutor a inverter o trajecto, decisão que tomou de imediato, voltando ao início do caminho seguido pelos outros veículos.

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Encontramo-nos nas Soalheiras, onde o grupo se concentrou para um cafézinho na Associação de Melhoramentos da Aldeia. O espaço é calmo e os idosos residentes sentam-se à entrada, ao fresco da leve brisa que corre. Lá dentro, são servidos os cafés e, passando um olhar pelas paredes e tecto do salão, avista-se uma imensidade de alfaias e utensílios de outros tempos. De nada servem, apenas embelezam o espaço e trazem à memória recordações de outras épocas.

Retomamos o caminho, o destino estava próximo e em minutos chegamos lá.

Dizer um adeus a todos, o prazer em conhecê-los e embarcar na bela Station até à Manga do Gabão.

Cumpriu-se o desejo de conhecer a aldeia da angústia e do sofrimento, ALARES.

 

João Antunes

   19-06-2016

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