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Animus Semper

A VISITA PASCAL

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NA MINHA ALDEIA ERA ASSIM

 

Um dia de glória, as pessoas de família, amigos e vizinhos reuniam-se em casa para beijarem a cruz. O Sr. Prior, de sobrepeliz branca e os mordomos de capa vermelha, um com a cruz, outro com a caldeirinha de água benta e os rapazes  com as campainhas, anunciavam a comitiva, que palmilhava a freguesia, casa a casa, dos mais ricos aos mais pobres.

Cada um tinha a sua tarefa, naquela que era uma visita rápida, pois  outros já esperavam a sua vez. O sacristão com a cruz, entrava na casa, dirigia-se à sala onde todos se ajoelhavam e passava a cruz de boca em boca para o beijo pascal, enquanto o Prior dizia: Cristo ressuscitou, alleluia, alleluia .

De seguida, um cumprimento rápido ao chefe da casa com os desejos de Boas Festas e reencaminhava-se de imediato para a saída.

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Às vezes, o crucifixo era beijocado com grande intensidade, dos pés à cabeça e nestes casos o  sacristão tirava um pano branco do bolso e limpava o crucifixo para a próxima devoção.

Um dos mordomos fazia de tesoureiro guardando os envelopes das ofertas em dinheiro que as casas mais abastadas faziam ao sr.Prior. Seguia-se o rapaz do cesto que recolhia queijos e ovos, presentes, que os lares mais pobres ofertavam ao Sr. Prior.

Todas as casas eram sujeitas a uma lavagem anual, mostravam um aspecto limpo e fresco e o chão bem esfregado com sabão azul e branco. Mesmo as mais humildes, embora a mesa fosse tosca, era coberta com uma toalha de linho onde sobre ela colocavam, uma cruz, uma garrafa de vinho, um folar pão de ló e ovos.

O Sr. Prior no auge desta visita, era sempre convidado:JOAO2.jpg

- Vai alguma coisa Sr. Prior ?

Ao que  ele respondia: 

 - Não obrigado, temos muito que andar, os vossos convidados já estão com apetite !

 E, retirava-se…      

Mas nas casas mais abastadas que caprichavam pela recepção, uma mesa composta com um folar a que chamavam o “folar do padre”, tinha uma variedade de bolos e vinho fino para acompanhar.

Ao lado, em  destaque, um envelope com dinheiro colocado sobre uma bandeja  de prata, ou numa taça ou prato e o Sr. Prior fazia questão em se sentar por breves momentos e fazer as honras da casa.            

 Alguns dos mordomos, aproveitando a pausa, serviam-se dos pitéus expostos, vinho do porto, bolos, amêndoas e retemperavam as energias para o resto das visitas.

Havendo doentes acamados, o Sr. Prior ia junto à cama e aí era recebido com mil queixumes, mas reconfortados com palavras de esperança, ficavam felizes e sentiam-se melhor.

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Nas aldeias, era costume os padrinhos darem aos seus afilhados o “folar” que consistia na doação de um pão especial, só cofeccionado nesta altura e  no dia de todos os Santos, a chamada “bica”, pão comprido à base de farinha e azeite com cerca de 40/50 cms, alguns bolos secos, e amêndoas.       

Vivia-se intensamente a Páscoa, as casas no seu exterior eram decoradas com rosmaninhos floridos, alecrim e malmequeres que davam um ar incontido de festa.

Há terras onde continua a haver visita pascal, bem diferentes de outros tempos, mas marcam o costume que continua vivo. O Sr. Prior deixa de estar presente, sendo esta missão entregue a respeitados leigos que com diversas cruzes e para acudirem a todos os lares cumprem esta visita pascal.

Já não é como dantes, dizem alguns!

São outros tempos, outros sinais…tenhamos esperança.

Páscoa... é vida nova.

 

João Antunes