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Animus Semper

A revolução russa – 1917 (2)

Da utopia à realidade

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Encontrando-se a Rússia envolvida na I guerra – mundial, em situação desvantajosa, com a perda da Ucrânia, Finlândia e países bálticos - a favor da Alemanha- deu-se o assalto à Duma (Parlamento) pelos bolcheviques em outubro de 1917, iniciando-se um clima revolucionário, liderado por Lenine. Perante os desaires militares da guerra, resultando em dois milhões de desertores e milhares de perdas de vidas humanas, o ideólogo dos bolcheviques prometeu retirar o país deste devastador conflito, agradando assim aos militares e aos camponeses. Esta decisão, diria Lenine, teria sido “a mais bela prenda feita à revolução russa”.

A retirada foi acordada pelo armistício de Brest- Litovsk em 03.12.1918, assinado entre os bolcheviques, chefiado por Trosky e os aliados da Alemanha. Estes ficariam assim libertos desta zona do conflito, podendo deslocar os seus militares para combater no Oeste da Europa.

Se Lenine saiu de uma guerra, logo provocou outra. Os opositores às novas políticas radicais e os que se viram espoliados das suas terras e os donos das fábricas que as viram nacionalizadas, sob a direção burocrática dos bolcheviques, não podiam ficar de mãos caídas, e reagiram a tais opções políticas radicais.

Nesta conjuntura, a Rússia ficou, a partir de 1918, dividida entre a armada branca – opositores à revolução – com 30 mil soldados, e as forças militares – o exército vermelho - liderado pelos bolcheviques, com Trotsky à frente. Esta situação geraria um ambiente caótico, dando origem a uma mortífera guerra civil que se prolongou até 1922. Para combater os seus opositores, o governo revolucionário decretou em 29.05.1918, a mobilização obrigatória na Armada Vermelha para combater a Armada Branca, apoiada pela França e Inglaterra.

De imediato, o exército vermelho ocap_russia_wwii_parade_07Nov121-975x589.jpgupou, estrategicamente, as grandes cidades industriais do norte e do centro da Rússia, mudando a capital, de São Petersburgo para Moscovo.

Deste conflito resultaram cerca de três milhões de mortos e 250 mil exilados. Fomes e epidemias, resultantes desta guerra, matariam cerca de oito milhões de pessoas. Estes anos de guerra civil não deixaram de provocar uma grave crise económica, com o governo a apostar na “economia de guerra”. Foi necessário chegar a 1921 para, com a implantação da Nova Política Económica (NEP), uma forma de capitalismo do Estado, a Rússia levantar um pouco a cabeça.

Toda esta luta revolucionária só foi possível graças às ideias utópicas do marxismo-leninismo que prometia uma sociedade igualitária, sem classes. O paraíso na terra, mas à custa dos 20 milhões de vítimas de Estaline, entre 1930 e 1953 no Gulag.

Não foram só os operários e camponeses que ficaram fascinados por esta ideologia, a eles se juntariam os intelectuais socialistas e anarquistas. Daqui resultaria o aparecimento de partidos destas cores nos países da Europa e do mundo.

Em Portugal, seria o Partido Comunista Português (PCP), fundado em 06.03.1921, em plena 1.ª República. Após a Revolução da Ditadura Militar de 28.05.1926, foi ilegalizado, entrando na clandestinidade até à Revolução do 25 de abril de 1974. Durante este longo período, os seus militantes, foram constantemente perseguidos pcunhal_1998_200pc.jpgela ditadura de Salazar, com exílios e prisões, torturas e assassinatos. Aljube, Peniche e Tarrafal guardam as memórias destes tempos.

Um dos maiores líderes do PCP foi Álvaro Cunhal (1913-2005), militante desde os 17 anos, com várias visitas à URSS. Seria eleito secretário – geral do partido, em 1961. A sua história de perseguido pela PIDE inclui 15 anos de prisão, por vários períodos, e a fuga da prisão de Peniche em 1960.

Embora a URSS se tenha desmembrado em 1991, após a queda do Muro de Berlim (1961-1989), os partidos comunistas na Europa e em alguns países do mundo vão-se mantendo. Neles se inclui a China, Venezuela, Cuba, Coreia do Norte e alguns países africanos. A grande utopia, apregoada pelo comunismo, foi esmorecendo com o impacto da realidade. Hoje, a globalização e o neoliberalismo vão cavando cada vez mais, o fosso entre os poucos que têm muito e muitos que têm pouco ou nada.

florentinobeirao@hotmail.com

 

NOTA: Vale a pena transcrever para aqui a mensagem que acompanhava este post. O Florentino sempre comunicador, esclarecendo a situação, acrescentando mais um tópico... E sempre amigo! Obrigado. AH 

 

«Caro amigo Henriques

Um pouco mais aliviados do fumo - que não dos efeitos dos fogos- aqui venho eu, de novo, a enviar-te para o nosso amado Animus, se assim o entenderes, mais uma colaboraçãozinha. Trata-se da segunda e última reflexão sobre a Revolução Russa, que conseguiu dividir o mundo em dois blocos antagónicos. Mas cujo efeito permanece ainda em alguns países. O futuro nos dirá dos possíveis efeitos desta revolução sangrenta.

De Fátima, nunca se conseguirá desligar. O pedaço do Muro de Berlim, ali permanece, relacionando estes dois acontecimentos históricos que  marcaram, indelevelmente, quase todo o séc.XX

Um forte abraço, com votos de que a mão da tua esposa esteja já em condições de descascar as deliciosas castanhas, no fraterno Magusto que se aproxima. Que corra pelo melhor.

f. beirão»