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Animus Semper

A revolução russa – 1917 (1)

 

O comunismo abalou o mundo

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Neste mês de outubro, ocorre o primeiro centenário da Revolução Russa de 1917. Ocasião para, sem complexos nem preconceitos, avaliarmos a latitude e a inegável importância deste histórico acontecimento que abalaria, no séc. XX, quase todo o mundo.

A imperial Rússia, no início do séc. XX, era governada por Nicolau II (1894-1918), um imperador autocrata conservador, muito duro nas suas convicções que se apoiava na aristocracia rural, nos oficiais do exército e na igreja ortodoxa. Mantendo a sua governação com mãos de ferro, reprimia qualquer movimento de contestação ao seu poder absoluto.

Com a maior população da Europa, 77% da população vivia da agricultura, em situação de pobreza, com 90% de analfabetos. Contudo, o recente arranque industrial da Rússia foi gerando uma classe operária modesta, com justas aspirações a uma vida melhor. Assim se foi gerando o seu incipiente capitalismo, muito potenciado pela produção de petróleo, com o rasgar do território com a construção de caminhos-de-ferro e fundação de siderurgias.

Embora tenha havido contínuas manifestações de descontentamento e de greves, por parte da oposição ao czar, nomeadamente com o assassinato de Alexandre II em 1881, foi necessário esperar pela revolução de 09.01.1905, com “o domingo sangrento”, em que o exército imperial abriu fogo sobre uma manifestação pacífica de operários em São Petersburgo, para o poder do czar tremer. O resultado deste afrontamento saldou-se em 130 mortos o qual provocaria uma onde de choque na sociedade russa. Face a este acontecimento, Nicolau II decidiu então abrir mão de algumas concessões políticas, nomeadamente a criação da Duma (assembleia parlamentar) e mandar publicar uma lei eleitoral. Após novas greves operárias, publicaria ainda um manifesto em 17.10.1905 que consagrava as liberdades de consciência, de reunião e de associação. Porém, o golpe fatal no regime seria desferido durante a 1.ª guerra-mundial (1914-1918), quando os soldados russos sofriam pesadas baixas, originando falta de mão-de-obra nos campos e racionamento de alimentos. Tudo começou em quatro de fevereiro de 1917 com os operários e soldados a manifestarem-se em São Petersburgo, para pedir comida e fim da guerra. Neste mês não pararam as manifestações de descontentamento com manifestações e greves gerais. Este agitadíssimo clima social acabaria por levar Nicolau II a abdicar em 02.03.1917, tomando posse um governo provisório liberal, liderado por Kerensky. Descontente com as medidas deste governo, o partido bolchevique, formado por anarquistas e socialistas revolucionários, sendo liderado por Lenine - regressado da Suíça com o apoio dos alemães - espreitava o poder. E foi neste contexto político e social que, no dia 25.10.1917, em S. Petersburgo, estas forças radicais marxistas cercaram o parlamento, onde se encontrava o governo provisório. De imediato, o governo seria entregue a um Conselho dos Comissários do Povo, dominado pelos bolcheviques que dissolveram a Assembleia Constituinte. Seria esta revolução que provocaria mais efeitos políticos na Rússia e, posteriormente, noutras nações. Pouco depois, em 17.07.1918, encontrando-se já no poder este novo governo leninista, foi assassinada a tiro a família do czar da Rússia, incluindo os seus cinco filhos.

Entretanto, foi revellenin_01.jpgado o novo programa de governo revolucionário que entusiasmou muitos militares, rurais e operários descontes com o deposto governo liberal provisório. Os novos donos do poder prometiam agora ao povo a saída imediata da 1.ª guerra-mundial, o regresso dos militares a suas casas, o fim da carestia de vida e uma reforma agrária, com a entrega das terras aos camponeses. Decretou-se ainda, em 3.11.1917, o controlo operário, promovendo-se a entrega das empresas aos empregados, em regime de autogestão. Quanto aos conselhos operários dos sovietes nas fábricas, ficaram submetidos ao rigoroso controlo do Estado. Contudo, a aplicação destas revolucionárias medidas, pelo novo governo bolchevique, a partir de 1918, não seriam fáceis, despoletando na Rússia uma atroz guerra-civil, onde o terror imperou. Assunto para uma outra conversa. Da utopia revolucionária à realidade, muito sangue foi derramado com a implantação do regime soviético na Rússia.

 

florentinobeirao@hotmail.com