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Animus Semper

A reforma de Lutero (3)

Mais uma rica colaboração do Florentino Beirão. Obrigado! AH

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Matar e morrer por Deus

 

Como sublinhámos em artigos anteriores, Lutero (1483-1546) encontrava-se preocupado sobretudo com uma saída para a sua angústia interior, a sua salvação eterna. Entre 1517 e 1524, nada mais preocupou este místico. Tudo quanto dizia respeito às questões sociais, políticas e económicas, passava-lhe completamente ao lado. A sua missão encontrava-se apenas confinada a ensinar a Palavra de Deus, a partir da sua interpretação da Bíblia, fonte única de toda a verdade.

Entretanto, em 1524-1525, eclodiu na Alemanha uma feroz “revolta dos camponeses”, esmagados por pesados impostos. Recorde-se que já em 1522, T. Munzer havia comandado massas de camponeses revoltados contra a nobreza. Face à nova investida revolucionária, Lutero que era defendido e apoiado por alguns príncipes, viu-se na necessidade de escrever, em 1525, um texto “Exortação à Paz”, onde tentava acalmar os revoltosos amotinados. Por outro lado, também não deixava de atacar os príncipes, opressores dos pobres.

 Aos camponeses pedia-lhes “paciência, resignação e obediência” pois que, segundo ele, o que mais importava era a liberdade interior. Caso os camponeses não aceitassem estas diretrizes, restaria aos poderes políticos esmagar as investidas populares. O que viria a acontecer.

Acrescentava ainda o pai da reforma protestante que “seria preferível a morte de todos os camponeses do que a dos príncipes”. Esta sua mentalidade de valorizar sobretudo a paz e a ordem social, foi transformando Lutero num homem social e politicamente conservador.

Em 1529, Lutero, envolvido ainda por uma mentalidade medieval, fundamentava esta sua visão na convicção de que o Estado, sendo uma instituição divina, gozava de poder absoluto. Donde, toda a autoridade, por essência, seria legítima. Quanto aos bens materiais, Lutero, em 1530, declarava que estes eram também de valor absoluto. A sua posse, concluía, significava uma preciosa dádiva de Deus.

Entretanto, a atitude do reformador ia contaminando boa parte da Europa, embora com propósitos diferentes, nomeadamente na Alemanha, Suíça, Países Baixos, França, Bélgica, Noruega, estendendo-se, finalmente, à Inglaterra e à Escócia, de onde emigraram muitos protestantes para a América, onde fundaram igrejas protestantes, ainda pujantes.

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O primitivo movimento da Reforma dividiu-se em várias sensibilidades – anabatistas, iluminados, huguenotes, calvinistas… - que se foram espalhando pelos países europeus de tradição romana. Esta rápida expansão acabaria por deixar na Europa sangrentas feridas, difíceis de sarar. Recordemos apenas a “Noite de S. Bartolomeu”, em 23.08.1572, promovida por católicos fanáticos em França contra os protestantes huguenotes, bem como as mortíferas e devastadoras guerras político-religiosas que se prolongaram por 30 anos, 1618-1648.

Só na noite de S. Bartolomeu terão sido massacrados, por forças católicas, cerca de 10.000 protestantes em Paris. E cerca de 25.000 nas províncias francesas.

Seria só com a Paz de Vestefália (24.08.1648), que, finalmente se colocaria um ponto final nesta longa guerra europeia, dando origem aos modernos estados - nação.

Da parte protestante, os crimes não foram menos graves. Refiram-se nomeadamente, os criminosos assaltos às igrejas e aos conventos, bem como a destruição de imagens de santos. Como os protestantes não as aceitavam, promoveram uma campanha iconoclasta destruidora. Numerosas obras de arte acabaram assim por desaparecer para sempre.

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Entretanto, Paulo III e os bispos europeus, aliados do sacro-império austro-húngaro, não ficaram parados face ao movimento protestante, respondendo com a convocação do Concílio de Trento (1545-1563), realizado em Itália. De Portugal, apoiados pelo rei D. João III, participaram nele vários bispos e teólogos, destacando-se o arcebispo de Braga Frei Bartolomeu dos Mártires (1514-1590), um homem de grande cultura e sabedoria, que implantou na sua diocese a doutrina e a disciplina, aprovadas neste concílio. A todo este movimento, designado de Contra – Reforma, se juntaram os jesuítas, fundados em 1540. No nosso país, foram colocados ao serviço do rei, que os nomeou para as áreas do ensino e das missões, sobretudo na Índia e Brasil. Em Portugal e Espanha, as doutrinas protestantes tiveram muita dificuldade em se implantar, devido, sobretudo, ao grande poder da “santa inquisição” que controlava todo o movimento cultural e religioso do país. A sua censura tornou-se uma das causas que mais terá contribuído para obstar a entrada dos novos ventos, em Portugal e na Espanha.

florentinobeirao@hotmail.com