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Animus Semper

A MINHA IDA PARA A TROPA-2

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A MINHA IDA PARA A TROPA – 2º PARTE

 

1955 – SERVIÇO MILITAR OBRIGATÓRIO – EXERCÍCIO DE FUNÇÕES NO R.A.P. 3 –FIGUEIRA DA FOZ

 

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Na primeira parte deste trabalho descrevi a entrada no Serviço Militar Obrigatório-SMO – ou seja a instrução com o JURAMENTO DE BANDEIRA e frequência do curso de oficiais propriamente dito, com a consequente promoção a aspirante a oficial miliciano e colocação no Regimento de Artilharia Pesada 3 – RAP 3 - na Figueira da Foz. Na parte final daquela primeira parte, prometi voltar ao assunto, o que passo a fazer. Assim,

 

A minha colocação ocorreu em Fevereiro de 1956. Eramos 39 aspirantes milicianos – com obrigatoriedade de 18 meses na tropa - e mais 4 aspirantes do quadro, isto é, profissionais de carreira, formados pela Escola do Exército.

O RAP3 da Figueira da Foz era um quartel de incorporação de recrutas, no qual, cada ano, eram incorporados mais de mil mancebos. Eram originários das localidades próximas, normalmente trabalhadores rurais, muitos analfabetos e uma grande parte com a 4ª classe, estes quase todos com iliteracia.  Não era fácil dar instrução militar a este contingente de jovens. Na instrução, cada aspirante era auxiliado por 2 ou 3 cabos milicianos, com preparação militar praticamente igual à dos oficiais milicianos.

 

HIERARQUIA MILITAR - EXÉRCITO

Nesta parte do trabalho tem interesse indicar os postos da hierarquia militar, nessa época – 1956 -. Havia OFICIAIS, SARGENTOS e PRAÇAS. Creio que estas categorias se mantêm.

Como Oficiais, o exército tinha OFICIAIS GENERAIS – marechal, general, tenente general, major general e brigadeiro general –; OFICIAIS SUPERIORES – coronel, tenente e major –; OFICIAL CAPITÃO – capitão –; OFICIAIS SUBALTERNOS – tenente, alferes e aspirante miliciano ou do quadro -; OFICIAIS EM FORMAÇÃO – cadetes - .Como sargentos, o exército tinha sargento mor, sargento chefe, sargento ajudante, 1º sargento, 2º sargento e furriel.

Como praças,  havia cabo de seção, cabo adjunto, 1º cabo, 2º cabo e soldado.

 Como praças em formação,   soldados recrutas.

 

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DISTINTIVOS

Cada uma destas categorias tinha um distintivo próprio:  galões para os oficiais e divisas para os sargentos e praças.

Na classe de oficiais - um general usava 3 estrelas, em triângulo, na manga; um coronel, um galão largo e 3 estreitos, no ombro; um tenente coronel, um galão largo e 2 estreitos; um major, um galão largo e um estreito; um capitão, 3 galões estreitos;  um tenente, 2 galões estreitos;  um alferes, 1 galão estreito;  um aspirante a oficial, um galão, em diagonal, no ombro.

Na classe de sargentos, um sargento ajudante, uma estrela, na manga; 1º sargento, 4 divisas , em V deitado, na manga; um furriel, 3 divisas em V deitado, na manga; um 1º cabo, 2 divisas em V deitado; um 2º cabo, 1 divisa, em V deitado ;  um cabo ajudante, 2 divisas em V na vertical; um cadete, uma estrela, no ombro.

 

ARMAMENTO

Importa também  referir qual o tipo de armas ligeiras e pesadas e o armamento pesado, peças de artilharia, canhões e obuses  que o quartel tinha à sua disposição.

ARMAS LIGEIRAS: espingarda MAUSER de 8 mm m/937; pistola metralhadora 9 mm da FBP (Fábrica de Braço de Prata-Lisboa), m/1947; pistola ou revólver de uso pessoal;  metralhadora ligeira de 7,62 mm Browning m/952;

ARMAS PESADAS : metralhadora pesada  12,7 mm, Browning m/955; canhão sem recuo 7,5 mm m/52 ; obus 14 mm com 2 pneus , puxado por um grande camião Matador com a altura de 3,1 metros, comprimento 7,751, peso 7,751 toneladas.

Essencialmente, no RAP3, dávamos instrução da mauser, da pistola metralhadora, do canhão 7,5 e do obus ( boca de fogo ) 14,0.

 

  A INSTRUÇÃO DOS rap3.jpgRECRUTAS

Como já escrevi antes, o RAP3 era um quartel de recrutamento e, por isso, como escrevi também, cada ano eram incorporados muito mais de mil mancebos. No ano de 1956, em que fui cocado na Figueira da Foz, a instrução foi dada pelos aspirantes milicianos – 39 – e pelos do quadro – 4 - .

A mim foi-me atribuído um pelotão de 32 recrutas, o que não era pouco. Número semelhante aos pelotões dos outros colegas. A nossa primeira função foi rececionar os recrutas. Consistia na inscrição, sendo dado um número a cada um, que o utilizaria durante todo o SMO.

Logo a seguir, os recrutas passavam à barbearia onde cortavam o cabelo “à escovinha”, como se dizia (  máquina zero, para se compreender melhor ). Tomavam banho e depois dirigiam-se ao casão para lhes ser dado todo o fardamento, ou seja todo o vestuário que passariam a usar, incluindo 2 pares de botas. As medidas eram tiradas “a olho”. Muitas vezes tinha que se trocar pois era demasiado grande ou pequeno. Na caserna - enorme, como se compreende -, tudo estava preparado para os receber. Cada cama tinha 2 ou 3 beliches numerados, com o número que fora atribuído a cada um. Um leito por baixo e 1 ou 2 por cima. Com um escadote para subir aos “andares superiores”.

A partir desse momento, os recrutas verificavam o seu lugar, equipavam-se à militar e “metiam na mala” toda a roupa “à civil”, devendo vestir-se sempre à militar. Ai daquele que infringisse o regulamento. Para sair do quartel, a sentinela, que estava no portão de armas, era obrigada a examinar quem saía, controlando a limpeza do fardamento, o aprumo geral e, principalmente, as botas bem engraxadas e com lustro. Lembro-me que muitos voltavam para trás para engraxar e dar lustro às botas. Disciplina militar a isso obrigava!

No dia seguinte começava a instrução .A cada aspirante com 2 cabos milicianos foi distribuído um grupo de recrutas. No meu caso, 32, como já escrevi. Normalmente, tratavam-se os recrutas pelo número - 8..32..48..56..64,etc ( ainda me lembro ). Porém, desde o início tive, assim como muitos colegas, a preocupação de conhecer o nome de todos. Ao fim de pouco tempo, a chamada, no princípio de cada hora de instrução, já era pelo nome e não pelo número, o que deu ânimo “às tropas”.

Nas primeiras semanas, o nosso objetivo era ensinar a marchar ( esquerdo, direito ), a fazer continências, sentido, etc. Havia, sempre alguns que tinham mais dificuldade.

Tive um recruta que não conseguia e ficou a ser instruído, exclusivamente, por um cabo miliciano. No fim, tudo deu certo. Praticávamos exercícios de ginástica, a princípio muito simples, e, pouco a pouco, mais complicados com saltos ao “plinto”, subida à corda, saltar ao eixo, corridas em competição, etc.

Da parte da tarde, dava-se instrução de armamento e de outras matérias teóricas. Ensinávamos a composição das armas, designadamente da mauser, da pistola metralhadora e outras. No fim da instrução os recrutas sabiam desmontar e montar os equipamentos e o funcionamento dos mesmos.

No material pesado - peça de fogo 14 e obus 7,5 - íamos para o local onde parqueavam e ali os examinávamos e estudávamos. Lembro-me que o acessório principal do 14 era o TEODOLITO, que era um instrumento de precisão ótica  que media os ângulos verticais e horizontais. Este instrumento era fundamental para o tiro. Note-se que o 14 lançava os obuses até uma distância de 14 kilómetros. Para trabalhar com este instrumento escolhiam-se 2 ou 3 dos mais espertos, pois era uma responsabilidade enorme verificar os ângulos verticais e horizontais para que a carga explosiva “caísse” e explodisse no local previamente determinado.

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Ao fim de creio que 2 meses de instrução, o pelotão estava em condições de competir com outros. Passado mais um mês, com todos os pelotões, em parada, devidamente alinhados, havia uma cerimónia empolgante, com discursos e a que assistia todo o quartel, muito público e familiares. Era o JURAMENTO DE BANDEIRA. Um dia de convívio, com “rancho” melhorado e cânticos populares. Depois deste dia continuavam a aperfeiçoar-se os conhecimentos já adquiridos e a conhecer outros, como informação, regulação e observação, através dos quais se conheciam as estruturas das unidades e táticas de artilharia, como por exemplo, conduzir o tiro sobre os alvos, com a máxima eficácia.

 

MANOBRAS MILITARES

No ano de 1956, realizaram-se manobras em SANTA MARGARIDA. Vinte e cinco mil militares em “combate”. 12.500 tropas amigas; 12.500 o inimigo, com capacetes pintados a amarelo, para se distinguirem. Participaram militares de todas as armas – infantaria, artilharia, cavalaria, etc. Com fogos reais, o exercício (manobras) durou 15 dias. Complicado e perigoso, por causa dos FOGOS REAIS. O meu pelotão combatia com o 14 e tinha que se saber bem ler as coordenadas no teodolito. Nesse ano não, mas houve muitos desastres em outros anos de manobras.

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Como o texto já vai extenso, vou apenas dar uma ideia do funcionamento do quartel, em que era comandante o coronel XEDAS, 2º comandante um tenente coronel, bem disposto, que levava todos os militares, semanalmente, a marchar e cantar pelas ruas da cidade, cânticos militares e populares, 3 capitães, 3 tenentes, 4 alferes, os 43 aspirantes e vários sargentos e cabos. No quartel, havia o OFICIAL DE DIA e no exterior OFICIAL DE RONDA para prevenir desacatos entre militares ou com civis. Lembremo-nos que “ quem bebe vinho dá de comer a um milhão de portugueses” Mensalmente, era nomeado UM OFICIAL E UM SARGENTO DE RANCHO e, também, um OFICIAL E UM SARGENTO DE MESSE, que se ocupavam, diariamente, da aquisição de víveres frescos para o rancho e para a messe. Na ORDEM DO DIA, eram publicados avisos e distribuição de tarefas, designadamente eram nomeadas as SENTINELAS que se colocavam em pontos estratégicos do quartel e que, de noite, alguém que se aproximasse tinha que saber a SENHA.

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Vou terminar, dizendo que tropa fazia bem a toda a gente. Não só nessa época, mas entendo que, mesmo nos dias de hoje, não seria descabido. Aliás, já exprimi a minha opinião sobre este assunto na 1ªparte deste trabalho.

A título de exemplo, confesso que ainda hoje, 61 anos depois, continuo a conviver com amigos desses tempos, fazendo almoços, regularmente. Com 4 antigos colegas, somos visitas de casa uns dos outros, lembrando esses “velhos tempos”.

Admito que foi necessária alguma paciência para ler estas memórias. No entanto, admito também que as escrevi com boa intenção e por uma boa causa.

Lisboa, 24 de Janeiro de 2017.                  

 

J.NOGUEIRA

 

NOTA: Com tanta precisão de apontamentos, ficamos capazes de seguir a via militar. Este Joaquim é imparável. A tua memória tem de nos deliciar com mais apontamentos. Parabéns e obrigado. AH

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