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Animus Semper

A MENTE MENTE...

MENTE

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É através da mente que alguém mente. Porque é na mente que está a fonte da mentira e da verdade. Quando escrevo mente, associo-lhe também a palavra pente. Estamos perante duas parónimas que , de certo modo, se complementam. Uma consoante as separa e duas vogais as aproximam. Veja-se. Mente inicia-se com eme, letra que se enrodilha sem saliências, com formas redondas e certinhas. Pente inicia-se com pê,  que se  apresenta com uma haste, que prolonga nos dois sentidos da vertical. Imaginamos a mente , ou a fonte da mente, dentro da caixa craniana com muitos emes ligados uns aos outros. Pente com as hastes da primeira letra lembra-nos os cabelos que cobrem a caixa craniana, onde reside a mente. Sendo assim, mente e pente completam-se. A mente activa a vitalidade interior do crânio; o pente protege esse mesmo crânio ao moldar-lhe, ao alisar-lhe, ao enfeitar-lhe o cabelo protector e exterior. Concluindo: a mente e o pente são solidários, cada qual na sua função.

    No entanto, há muitas diferenças entre a mente e o pente. Citemos apenas uma que é evidente e de fácil explicação – se fosse difícil também não me metia nela! – e compreensão. É que a mente, mente. E o pente não pente, apenas penteia. Isto é, o pente é inocente, adorna o cabelo, mas à vista de toda a gente. Com mais ou menos arte, mas sem subterfúgios ou fingimentos. Ah! Mas a mente é matreira ou leal; calculista ou natural: fingida ou verdadeira; aberta ou fechada; tolerante ou ríspida; tranquila ou agressiva. Pior, nunca se sabe o que é ou quando não é, actue ela em silêncio ou com exteriorização verbal ou gestual. Resumindo, a mente é capaz do melhor e do pior e é através dela que o homem define, perante os outros, a sua personalidade, a sua estrutura mental, o seu ego.

   Convenhamos, porém, que o pior dom que a mente tem é que, através da sua inesgotável capacidade de pensar, mente. Mente a criança, mente o adolescente, mente o jovem, mente o adulto. Todo o ser humano, porque tem mente, mente. E só se deixa de mentir, quando chega a hora da verdade final. A última. O fim. A única que a mentira não consegue enganar. É o  triunfo da verdade sobre a mentira,  o derradeiro estertor da mente. Mas a mente, mente porque quer? Nem sempre. Só que há verdades que são mentiras e mentiras que são verdades. Depende da emanação de umas e doutras, bem como do destinatário a quem se dirigem.

    Mas é pela mente que temos a perspectiva, digo, a perspetiva de que neste momento nos encontramos  no expoente máximo das mentiras que emanam da mente. Até já foi criada expressão própria para  definir ou referir os expoentes máximos desta verdade: « Donos disto tudo!» E como a lista já vai longa, meu Deus!   De  tão ambiciosos que são, através das suas maliciosas mentes, querem dominar também as mentes dos outros. O que não é tão fácil, como muitos deles pensam.

       Desde políticos até à banca, passando por diversos manobradores de leis, umas feitas por eles, outras mandadas fazer por outros, cujas mentes se confundem com os primeiros, eis onde se encontra  a sede da trafulhice nacional. O resto vem por acréscimo, através duma teia mental incomensurável. Sabendo-se o que se vai conhecendo, tudo parece ficar mais claro e transparente. Será que fica? Não fica, porque o que mente, só confunde, só engana, só atrapalha, só ofende, só prejudica só se emporcalha. O desejo do poder não olha a meios, digo, a mentiras. Usam todos o MTNS: mentem na Manhã, mentem à Tarde, mentem à Noite   mentem Sempre!

Agora estamos num tempo em que há mentes que todos conhecemos e que superam tudo o que parecia inimaginável antes de elas se revelarem. Casos há em que a mente de certa gente gera no cidadão vulgar, mais do que admiração, estupefacção, digo, estupefação. Que classe! Que categoria! Que descaramento! Que aberração! Que lata! Que trafulhice! Aquilo já não é simples mentira. Aquilo é mitomania no mais elevado grau. Aquilo é uma doença. Incurável? Sim, porque já atingiu o ponto máximo da aldrabice: cada qual mente convicto de que diz a verdade. Para ele a mentira  que sai da sua mente é a verdade. É um caso arrumado. Atingirá ele o objectivo que pretende alcançar? Aconteça o que acontecer, ele não engana, mesmo que por engano lhe saia uma verdade. Como se envergonharia o grego se viesse a saber disto, das mentes doentias. Já nem precisaria da cicuta. Porque no seu tempo, e antes e depois, já abundavam os mitómanos nos mais diversos campos. Uns mais puros do que outros, se é que pode haver pureza em tais mentes. Resignemo-nos, protegidos pelo princípio de que também há mentes inocentes.. E muitas, mais do que muitas mentes possam imaginar. Louvor a Deus!

    Mas o pior de tudo isto é a expansão que a mentira teve. As mentes já não pensam, deliram. Mentem os do governo e os seus prosélitos; metem os da oposição e os seus sequazes à espera duma oportunidade; mentem as confederações patronais; mentem os sindicatos; mentem os gestores ; mentem os trabalhadores. Todos? Infelizmente as excepções apenas confirmam a regra. E o país à beira do abismo continua a mentir, a fingir, talvez porque não sabe fazer outra coisa. Em relação à mente tudo é confuso. Recordemos o velhinho, dir-se-ia arcaico, ditado « mens sana in corpore sano»do conhecido Juvenal. Hoje, quase nos apetece virá-lo do avesso. O que não resolverá grande coisa, já que as mentes e os corpos não são feitos pela mesma fita métrica dos fatos confeccionados pelo alfaiate. Se alguma mente teve coragem para ler a crónica até aqui, garanto que se trata duma mente sã. Sobre as mentes que desistiram, logicamente que não vou pronunciar-me: se não leram …

      E a minha mente, como se porta? Como o arrazoado já vai longo, é melhor ficarmos por aqui.

António Pires da Costa (Montijo)

 

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