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Animus Semper

A INFERNAL TRAGÉDIA DE PEDRÓGÃO

DE VOLTA AOS INCÊNDIOS - com o Florentino Beirão

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Restam as cinzas e as lágrimas

 

Os 64 mortos e várias dezenas de feridos resultantes do monstruoso incêndio de Pedrógão Grande, ocorrido na passada semana, colocaram o país em estado de choque. O brutal número de falecidos e bens atingidos - 200 casas destruídas e 50 mil hectares de cinzas - ficará inscrito na história dos habituais incêndios de verão, como uma das maiores tragédias, a exigir uma aprofundada reflexão de todos os portugueses. Dos políticos e dos cidadãos.

O fenómeno não sendo novo, este ano em Pedrógão, atingiu um grau de tragédia nunca experienciado em democracia. Na verdade, bem perto de nós, já assistimos aos incêndios que varreram a serra da Estrela - Covilhã e a serra da Gardunha. Recordamos ainda nas últimas décadas os fogos de Mação, Proença- a - Nova, Sertã, Oleiros e Vila de Rei. Nada tem escapado às chamas devoradoras no verão. A mancha verde deste nosso distrito, já toda conheceu as marcas deste inferno. Desta vez, a tragédia chegou também não muito longe de nós.

Face a estes e a outros incêndios no norte e no sul do país, não têm faltado grandes estudos e relatórios sobre as causas e as consequências desta contínua devastação do nosso petróleo verde. O diagnóstico é conhecido. Os eucaliptais que invadiram muitas zonas do país a multiplicarem-se dia após dia. As celuloses e os madeireiros sem escrúpulos, sempre gulosos por áreas ardidas. A falta de um planeamento adequado da floresta nacional tem deixado as nossas serras e campos à deriva. A irresponsabilidade dos particulares a viverem paredes meias com a vegetação em redor de suas casas. A agricultura particular, a minguar a olhos vistos, com aldeias desertas ou com pessoas idosas já incapazes de limpar as suas matas, vai deixando espaço livre aos incêndios. Com a morte da função de Guarda -Florestal, agora integrados na GNR, os espaços florestais ficaram à deriva, sem atempado alerta. A falta de meios de combate aos incêndios é apontado também como uma das causas da progressão dos fogos. Acrescenta-se ainda a estas razões, o malfadado SIRESP (sistema integrado de resposta) - uma gulosa parceria público-privada consumidora de milhões, a revelar falhas graves de operacionalidade no terreno.

Uma mão cheia de razões que nos podem ajudar a entender as múltiplas causas que têm contribuído para que em todos os estios, os incêndios nos visitem e deixem o seu rasto de miséria entre as populações do interior que, de um momento para o outro ficam privados dos seus magros bens.

No caso concreto deste incêndio de Pedrógão já se presume que, pela força da natureza, se deu um fenómeno extremo. Um vento de grande intensidade que se moveu verticalmente em direção ao solo e que, após atingi-lo, soprou de forma radical em todas as direções (downburst). Sabemos ainda que nas primeiras 48 horas, a cadeia de comandos não funcionou, deixando as comunicações desativadas. Acresce ainda que houve indicações contraditórias, com estradas que não foram cortadas. A desorientação dos comandos das operações em alguns momentos foi mais que evidente.

Agora nesta fase de rescalde deste brutal incêndio, como sempre, aparece a ladainha dos relatórios, a nomeação de comissões, o passar de culpas e a oposição a pedir responsabilidades ao Governo. Este, por sua vez, a pedir calma e humildade.

Só que o peso dos 64 mortos às nossas costas clama, de uma vez por todas, que levemos mais a sério a questão sazonal dos incêndios no país. Não só leis adequadas como agora se promete, mas a urgência de passas à ação eficaz. O diagnóstico desde há muito que está feito. Já se sabe quase tudo sobre as causas. Só falta cumprir as boas e urgentes práticas para que estes dramas jamais se repitam. Será desta? Senhores do poder, surpreendam-nos por favor. Trata-se sobretudo, de uma exigente e urgente questão política, não partidária. É necessário que os portugueses acreditem na sua segurança, quanto ao Estado compete. Já é certo que o futuro não vai ser melhor em relação ao aquecimento global do Planeta. Resta organizarmo-nos de modo para que tudo o que dependa de nós, falhe o menos possível. Já basta de cinzas e lágrimas. De louvar a pronta generosidade do nosso povo solidário. Agora será a hora de virar a página, na esperança que se emende o que até aqui não foi possível.

 

florentinobeirao@hotmail.com