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Animus Semper

A CULTURA DO MILHO

 A CULTURA DO MILHO - BROA - PÃO NOSSO DE CADA DIA

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Na Beira Interior – onde se passava a descrição que vai seguir - e creio que em todo o país rural - só se comia pão de trigo nas festas e ou nos dias festivos. Normalmente, a acompanhar as refeições, comia-se BROA também designada de BOROA. Isto nos tempos mais antigos, sendo certo que, ainda hoje, é uma festa quando se opta pela broa, em vez do trigo.

Tem interesse que os mais novos ou os citadinos tenham uma ideia do chamado ciclo do milho, nessa época passada. Nesse sentido, vou descrever as várias fases da sua cultura, desde a sementeira, passando pelo tirar da bandeira, da ponta, até à colheita das espigas, da desfolhada ou descamisada, da malha, da secagem nas eiras, da moagem, terminando-se com a cozedura no forno a lenha, donde saiam broas saudáveis e apetitosas.

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 A SEMENTEIRA

Passado o Inverno, com as terras secas, inicia-se a sua preparação, lavrando-as, com arado, puxado por junta de bois ou vacas. Lavrar o terreno consiste em arroteá-lo, abrindo sulcos no mesmo, com o arado. Lavrado o terreno, lançam-se as sementes (grãos de milho) à terra, com a mão, de maneira a que o terreno fique coberto de grãos, de uma forma regular. Passa-se, de seguida, com uma grade de madeira carregada com pedregulhos, primeiro com os bicos voltados para o solo, ficando enterradas as sementes e, depois, volta-se a grade, com os bicos para cima, de forma a alisar o terreno, que fica fresco, com todas as ervas enterradas. Abrem-sMILHO.JPGe sulcos para conduzir a água, na altura das regas, ficando concluída esta fase da sementeira.

Passados alguns dias começam a brotar do solo pequenas plantas que vão crescer até se tornarem adultas, com um caule , alto, de ou mais de um metro e meio. O caule tem folhas verdes pendentes, ao meio vai-se desenvolvendo a espiga e, na parte superior, cresce a ponta que culmina com uma inflorescência, com espigas em cachos, que, popularmente, se designam de bandeiras.

O trabalho do agricultor é árduo e contínuo: passado cerca de um mês, há que cortar a bandeira que, em fresco, se dá aos animais para os alimentar. Na fase seguinte, colhem-se as pontas, que se estendem para secar, fazendo-se molhos que se guardam nos palheiros para o gado comer no Inverno.

Quando as espigas estão maduras – por volta dos meados de Setembro – colhem-se e são transportadas para junto da eira, onde ficam, em monte, até serem descamisadas ou desfolhadas. É a esta operação que vou dar mais atenção. O caule que ficou, com folhas,MILHO7.jpg é cortado rente ao solo, é seco e guardado no palheiro para alimentação do gado, no Inverno.

 

A DESCAMISADA OU DESFOLHADA

Fazer a descamisada é desensamarrar, isto é, despir a espiga do milho ou maçaroca das suas vestes, ou seja, do “camiso” que envolve o sabugo com o grão, agarrado àquele, em filas paralelas.

Normalmente, na Beira Interior, todas as famílias tinham cultura de milho, com quantidades, maiores ou menores. Certo é que, quando um vizinho procedia à sua descamisada, todos os outros auxiliavam, nessa tarefa.

Era uma alegria, principalmente para os jovens: na noite quente e serena, com um candeeiro de petróleo colocado numa vara, para iluminar o conjunto, sentados os participantes a fazer roda junto do monte de espigas, MILHO6.JPGas raparigas apertavam-se um pouco para dar lugar aos namorados e, felizes, namoravam durante todo o serão.

Entoavam-se cânticos próprios da ocasião, em voz forte para se sobrepor à barulheira do folhelho.

Uma ou outra vez, alguém mais atrevido, aproximava-se do candeeiro e, com um sopro, apagava-o. Ficava-se com a claridade do luar e os jovens “aproveitavam” para uns beijinhos.

Era uma gritaria quando alguém encontrava uma espiga negra: antigamente as raparigas só podiam dar um aperto de mão aos rapazes. Porém, com o derrubar das “barreiras”, passou a ser permitido beijar toda a gente. Claro que os beijos dados aos rapazes, demorados e quentes, tinham outro sabor (salvo seja).

As espigas descamisadas eram levadas para a eira, ao lado, para serem espalhadas e secarem. Eram, depois, malhadas com moeiras, separando-se os grãos do sabugo. Os grãos eram secos ao sol e ensacados para serem moídos nas azenhas (moinhos) movidas a água, transformando-se em farinha.

Terminada a descamisada, organizava-se um bailarico, ao som duma concertina ou de uma flauta. O baile durava até de madrugada, sendo este o principal divertimento dessa época, que a juventude aproveitava para conversar e se conhecer melhor.

 

A COZEDURA DO PÃO

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Era com a farinha antes referida que as famílias faziam as broas em fornos, que levavam uma dúzia ou mais. Para alegrar as crianças, as Mães faziam broas pequenas – tipo papo seco -  que eram degustadas, mesmo quentes. As Mães avisavam: “deixem arrefecer, pois o pão quente faz mal”. Indiferentes, os miúdos comiam e depois vinham as dores de barriga e as mães –“ eu avisei-vos, na próxima já sabem”.

Este o ciclo do milho, nessa época da minha meninice, adolescência e juventude.

É possível que se pergunte como é que eu sei isto. Simples – o meu pai dizia que as férias eram apenas mudança de actividade.  Assim, eu e meus 8 irmãos, estudantes do secundário e mesmo universitários, durante as férias, fizemos todos os tipos de trabalho do campo.  Não esquecer que nascemos e fomos criados nas Ribeiras Fundeiras, da freguesia de Várzea dos Cavaleiros e isto passou-se nas décadas de 40 a 60 do século passado.

Não nos fez mal e hoje entendemos que foi uma LIÇÃO DE VIDA, que nos ajudou a aprender que qualquer tipo de trabalho é digno.

Lisboa, 15 de Dezembro de 2 016.

Joaquim NOGUEIRA.